Já não sou tão flexível, nem nas juntas e nem nos gostos. Eu
tenho vinte e poucos anos e minha paciência para tolerar lugares cheios e
pessoas vazias anda se esvaindo rapidamente.
Ainda alcanço meu dedão com a palma da mão, mas perdi o paladar para aquelas luzes piscantes, o mix de cheiros e os olhares sem alma.
Ainda alcanço meu dedão com a palma da mão, mas perdi o paladar para aquelas luzes piscantes, o mix de cheiros e os olhares sem alma.
Fiquei seletiva. Não tomo vinho de garrafa de plástico,
escolho melhor minhas companhias e minhas amizades são contadas nos dedos das
mãos. As que eu contava com os dedos do pé ou com dedos emprestados foram
ficando pra trás em alguma parte do caminho. Mas destas que ainda conto,
nenhuma veio para não ficar.
A pilha de louças sujas na pia me incomoda e começo a
entender melhor meus pais e seus motivos. Meus avós e suas razões, meus tios e
seus conselhos. Acho que estou vendo melhor, embora os graus tenham aumentado e
o que está perto seja, ainda, o mais fácil de distinguir. Já anseio por ver
melhor à distância, eu busco certo controle no que está por vir.
Meu corpo responde bem aos toques e movimentos, mas minha
mente está mais aguçada e desafiadora. A sala onde eu guardava os recortes de
tudo que eu sou é hoje uma galeria plana e extensa. Há quadros, fotografias,
esculturas. Cores e formas diferentes que compõem um algo sólido e incomum.
Agora percebo que as coisas importantes da vida ninguém me
ensinou. Cheiro de pão francês saindo do forno, suco de laranja com gelo, andar
descalço na grama. Ninguém me contou que chorado curamos feridas, que o
silêncio é uma excelente resposta e que meu sorriso é minha melhor arma.
Aprendi a cozinhar, a dormir sozinha, a calar meus medos. Sinto-me
mais forte, mas ainda estou indecisa. Nem sempre sei se estou no caminho certo,
quase nunca fico parada por isso.
Já não preciso fazer tantas contas para fazer caber no meu
salário o mês inteiro, mas ainda estou muito longe do que esperava. Descobri
finalmente o que minha mãe me dizia sobre o prazer do trabalho.
Lembro com saudade da época que não tinha tantas
responsabilidades e que me cobrava bem menos, mas não quero voltar pra lá. É
que aprendi a amar esse alguém que me tornei e não quero correr o risco de me
perder no caminho de volta. Eu não penso em voltar atrás, não tenho grandes
arrependimentos, embora haja coisas as quais não me esforço para lembrar e
algumas pessoas que fiz conta de esquecer.
Eu tenho vinte e poucos anos, vinte e tantos sonhos.
*-*
ResponderExcluiradorei flavinha! muito bom mesmo!
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